quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O Espetáculo Precisa Continuar


Não tenho escrito muito, assim como tão pouco tenho lido. Não tenho saído, não ouso conversar sobre como vai minha vida. Esse tipo de conversa ou pensamento virou um grande elefante branco na sala. Pessoas me perguntam se estou melhor com a seguinte afirmação " Você se sente melhor? Me parece melhor.", logo as respondo com o querem ouvir.

Fico nessa farsa de que o mundo voltou a ser meu lugar favorito, que foi apenas uma página triste e sombria, mas tudo bem. Já superei. Aliás, para não haver desconfortos arranquei a maldita página. Estou bem, olha como sorrio contente pra foto, olha a maquiagem impecável. O espetáculo não pode parar, a platéia exige alegria e risadas de doer a barriga, e  eu as dou. Esforço meu corpo até sentir minhas entranhas se contorcerem em um apelo inútil para que eu pare.

A grande verdade é que todo palhaço depois que as cortinas descem, e deixa a maquiagem cair, o que sobra é apenas o homem feito de carne. Uma carne ferida, que por vezes fede, mas que no calor do espetáculo ninguém sente o mau odor, mas ele está ali. Juntamente com as inúmeras cicatrizes cheias de quiloideis por não conseguirem cicatrizar direito. No fim do espetáculo, estou triste e sombria, meu vazio é cada vez maior, na escuridão da coxia libero todo tipo de dor que sufoco, mas tudo isso é por pouco tempo. Nem mesmo a dor, ou o grande vazio que sou tem o privilégio de durar por muito tempo, afinal o espetáculo tem que continuar.

É por isso que não tenho escrito, no papel não sei fingir felicidade, não sei dizer que superei meus pesadelos. Não consigo deixar de vomitar toda dor que me corrói de dentro pra fora.
No papel eu transbordo com a fúria de uma grande tempestade. Aqui por alguns minutos sou apenas eu. Uma pessoa quebrada, consciente de que nada passou, está tudo muito bem socado pra não transparecer.

Vamos combinar algo? Eu finjo que não vomitei isso aqui, e você por sua vez finge que nunca leu. Assim é mais fácil, assim podemos continuar com o grande circo que virou minha vida.
O próximo passo é você me perguntar se estou bem, então podemos continuar com a dança.

sábado, 10 de agosto de 2019

Hoje eu venci


Hoje eu saí de casa. Parece algo simples, rotineiro, trivial até, mas depois que vi minha vida jogada dentro de um furacão sair da cama, me vestir e até tomar banho em alguns dias é como lutar uma guerra contra um samurai com a faca velha de cortar pão, o fracasso é iminente.

Hoje eu venci. Venci meu corpo que se recusava a sair do sofá, venci minha mente que criou inúmeros motivos para eu ficar em casa, venci o medo e minha ansiedade que me causa dores e falta de ar. Venci o péssimo dia de ontem em que não consegui nem ir trabalhar, venci o cid. F41.2. Hoje eu venci. Venci a mim mesma.

Me arrumei, me senti bonita, passei perfume enquanto minha mente gritava que eu não conseguiria. Sorri para todos, mas por dentro sentia tudo ruir. Mas dessa vez não deixei minha mente ganhar, HOJE NÃO gritei como se fosse Ayra Stark.
Entrei no carro, coloquei uma música animada, abri só um pouquinho a janela e me permitir respirar.

Hoje pela primeira vez depois de muito tempo me senti de novo no controle. E o melhor foi rever uma grande amiga, sentir seu abraço, saber que não estou só nessa longa caminhada e que tudo bem pra ela os "deixa para outro dia" que recebe de mim, porque além de me amar ela me respeita.
Tô feliz, então quis escrever para quando minha mente tentar acabar comigo eu grite HOJE NÃO.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

ESPERA


Estou deprimida. É isso. Não tem firulas, não tem desculpas ou justificativas pra fingir que são apenas dias ruins. É mais que isso, é depressão, é a fase mais ferrada da minha vida.
A sensação é de estar sendo atropelada por um caminhão várias e várias vezes seguidas, não há intervalo pra respirar ou fazer curativos, não existe tempo pra gritar socorro ou tentar me erguer. Tudo que existe é o caminhão e eu. Minha dor e eu, minha mente e eu, minha ansiedade e eu, pois é. Talvez você não saiba mais também tenho uma maldita ansiedade que faz meu peito parecer uma bomba relógio, que me deixa acordada de noite e com cara de morta pela manhã, obrigada maquiagem por existir.

Queria dizer que o tratamento está fazendo efeito, que os remédios me acalmam, que a terapia ajuda e que logo menos na próxima foto que eu postar meu sorriso e felicidade serão reais, só que não vou. Não posso. Talvez eu nunca me livre das drogas dos remédios e das conversas sem fim com alguém que diz que as coisas uma hora vão se ajeitar, mas talvez possa ser que as coisas realmente melhorem no final do mês ou do ano quem é que sabe?
Sei que me olhando eu pareço feliz, filhos lindos e saudáveis, esposo nota dez, um emprego estável, amigos ainda que poucos, uma casa boa, enfim qual o motivo para ter depressão? É aí que mora o segredo, aparentemente essa doença não liga pra nada disso, ela não se interessa por quem você é ou pelo que tem. Dane-se sua vida boa, dane-se tudo.

Minha mente é morada pra todo tipo de pensamento inútil, ela é um labirinto que por mais que eu corra não existe saída, no final eu sempre perco.
Hoje enquanto espero por mais uma consulta minha mente vaga para o primeiro dia que estive aqui, foi um dia horrível, mas agora olhando tudo que já passou depois disso, acho mesmo que foi um dia bom, os piores vieram depois dele. As crises de pânico, a inércia, a vontade de ficar o dia todo na cama, a insônia durante as madrugadas, as crises de choros, os desejos súbitos de acabar com tudo, de apenas me desligar.

Um lembrete que é bom gravar no espelho "aproveite um dia bom, eles são raros". Imagino que o médico vai dizer que isso é um processo, talvez mudar a medição e por aí vai.
Tenho escrito bastante nos últimos tempos, dizem que ajuda. Sinceramente não sinto nada, nada mesmo.
Estou deprimida, ansiosa e chorosa. E só escrevi isso porque não sei o que fazer enquanto espero por um médico que não sabe nada sobre mim, mas acha que sua profissão pode me curar.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

DEIXA EU TE DIZER...


Vem, deixa eu te contar sobre como é estar preso dentro de você mesmo. Como é não conseguir dormir porque seus pensamentos não desligam.
Porque duas horas da madrugada é o horário perfeito para seu cérebro ficar remoendo todas as merdas que já aconteceram em sua vida e você ingenuamente achou que havia superado. Então em um dia comum, você se arruma, vai para o trabalho e de repente todas aquelas coisas que te machucaram em algum momento saltam pra fora e tentam desesperadamente te afogarem.

Deixa eu te contar como é ter o coração espremido igual a laranja no espremedor moderno que você tem guardado no armário, deixa eu te dizer o que é sentir seus pulmões falharem da maneira mais covarde, e em segundos tudo fica escuro e amedrontador, você quer gritar, mas sua voz não sai, existe pânico nos seus olhos. Você sente que seu fim chegou, e nem assim consegue pedir para algum deus a misericórdia divina.

‌Aí você me olha naquela foto de perfil, e pensa "nossa como ela é feliz", ou "ela tem uma família perfeita", mas deixa eu te contar um segredo triste essa foto tão linda foi a primeira de um dia razoavelmente bom. Dia esse que sentei na varanda com meus filhos pra tomar sol. Brincamos, fiz carinho no meu cachorro e achei que esse dia merecia uma foto. Uma foto que me lembrasse que entre inúmeros dias ruins eu tive um que não me levou a exaustão. Então postei porque aquela foto era o meu lembrete de que por mais que demorem dias bons ainda surgem. Não postei para ganhar likes, ou porque me achei bonita, apenas me senti humana. Então, desculpas se minha falsa felicidade ás vezes te gera uma pontinha de ciumes, não era essa a intenção.

Senta que eu te conto como é cruel estar aprisionada e saber que seu algoz é sua própria mente. Como é terrível querer fugir e mesmo assim não conseguir ver uma saída, alias deixa eu te contar que minhas ideias de saídas acabam sempre em pensamentos destrutivos.
Quer ouvir um segredo? Estou morrendo, todo dia um pouquinho mais. Desse jeito não me sinto tão culpada por querer abandonar a embarcação. É triste eu sei, se tem alguém que sabe o quanto isso é triste essa pessoa é aquela que me olha todos os dias de volta sem brilho no olhar.

Só queria te pedir para quando acontecer de ver alguma foto minha tenta lembrar que sou humana e na minha humanidade não existe perfeição, que o sorriso que estampo nem sempre condiz com o momento que estou vivendo, na verdade se me ver sorrindo por aí me faça um favor? Comemore, porque dias felizes tem sido escassos por aqui.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

NÃO EXISTE FINAL BONITO POR AQUI


Ontem abri uma porta que estava trancada. Por um longo período guardei tudo dentro do mais obscuro dentro de mim, enjaulei todas as palavras que durante muito tempo escapavam com a mesma facilidade que o abrir dos olhos.
Achei que essa parte da minha vida estava morta assim como uma flor que é cortada para ser presenteada, apesar de linda seu fim é inegável.

Mas ontem quando desabafei da maneira mais humana que consegui sobre como meus dias tem sido, senti aquela estranha familiaridade com as palavras. Por um milésimo de segundo me senti respirar, como se o ar finalmente voltasse aos meus pulmões e meu corpo se lembrasse de oxigenar, então esse pequeno fragmento se partiu e fui jogada de volta no mesmo limbo que tenho estado a meses.

Todo dia tenho colocado minha máscara de pessoa feliz, mas cada dia sinto o peso dessa prisão. Tem dias que deixo pedaços dela escapar e deixo transparecer pequenos traços de quem realmente se esconde por trás de sorrisos e filtros bonitos.
Esses dias me disseram que estou na minha melhor fase, chega ser irônico o quanto existe beleza na dor.
A verdade é que não estou bem, choro por toda dor que sufoco e soco dentro do peito. Preciso deixar tudo pequeno até fingir que minha dor não é maior que eu, mas a verdade é que ela me engole todo dia que acordo, todo dia que me olho no espelho e passo batom nos lábios é um pouco de mim que se perde.

Ontem era um dia bom até não ser, hoje acordei em um loop do dia anterior, meus dias tem sido assim, uma triste repetição de dores que já não cabem em mim, por isso decide libertá-las por aqui, quem sabe em algum momento elas achem que meu corpo e mente já não seus lugares preferidos.
Por hoje choro por dentro, com olhos lindamente maquiados por fora.
E repito baixinho depressão é uma merda. Não existe final bonito pra esse texto, provavelmente para os próximos também.