quinta-feira, 11 de novembro de 2021

EU SINTO MUITO

Você já teve um dia ruim, mas um dia ruim mesmo. Daqueles que a única coisa que passa em sua mente são formas de acabar com toda dor? Eu tenho uma coleção de álbuns de dias assim, estou preste a completar mais um, e sempre me pergunto quando será o último. Qual será aquele álbum premiado que me fará ganhar o grande e desejoso prêmio. Não tenho escrito muito, as pessoas se assustam com a verdade. Todo mundo prefere viver em um mundo onde todas as pessoas são felizes, as tristes só aparecem em noticiários na TV. Então eu me calo, disfarço minhas dores com sorrisos amarelados e comentários inúteis, mas que de alguma forma trazem a falsa sensação de conforto para as pessoas. Ninguém está afim de ouvir suas dores. Engula o choro. Sorria. Foi só um dia ruim, para de ser dramática. 

Dizem que a escrita nos liberta, então porque é que me sinto enclausurada em meio a todas minhas palavras. A semana ainda não acabou, e já me sinto engolida. Choro. Escrevo. Apago. Choro. Faço um chá e volto a chorar, algo precisa se desprender de mim, nem que seja as lágrimas.

No escuro oro baixinho pedindo para os céus acabarem com toda essa dor que já não cabe mais em mim. Por muito tempo achei que era egoísmo, hoje vejo minha prece como cura pra mim e para aqueles que estão presos por correntes invisíveis aos meus sentimentos. Não é justo minhas feridas causarem úlceras em quem só quer me cuidar. Então quando tudo se fizer silêncio espero que só fique a lembrança dos dias que meu sorriso fizeram moradia, uma hora a dor vai embora. É o que eles disseram.

Estou partindo aos poucos, talvez assim a dor não seja tão violenta e repentina. Sinto muito por isso, aliás esse é o grande problema. Eu nasci pra sentir muito, mas ninguém me perguntou se queria ser assim, simplesmente sou, e ser assim tem um alto preço que já não consigo mais pagar. Escrevo pra deixar registrado para os céus que eu tentei, mas esse coração de carne cansou de sangrar. 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

OLHOS DE RESSACA

Leia Ouvindo | Elephant Gun

Fico me perguntando quando é que o silêncio vai voltar a me pertencer. Logo eu que sempre amei as palavras, que brincava de recitar como quem brinca de ninar. Logo eu que dormia com as palavras, acordava com elas e as comia religiosamente no café, agora me sinto sufocada por esse emaranhado de letras carregadas de um peso que esmagam meu corpo a cada segundo. Me sinto escrava dentro da minha própria cabeça, a tanto barulho, tantas vozes, tanta gritaria que silêncio é tudo que meu corpo e alma suplicam em frenesi.

Hoje recebi uma notícia triste, algo que já estava sendo esperado, mesmo orando pra Deus e o universo. Ouvir certas palavras me devolveram a um momento de dor que há muito não sentia, o choque foi tão avassalador que senti meu corpo se retorcer em busca de se auto proteger, não deu. Chorei, cai e senti o peso do mundo.

Estudos comprovam que o corpo humano é capaz de aguentar até 47 dels, um parto normal causa 57 dels que chega aproximadamente a ser 20 ossos quebrando ao mesmo tempo. A dor que sinto hoje é como se todos os meus ossos fossem de vidro e respirar fosse assustador. Fui atropelada, é isso. Meu corpo está imóvel, em choque. Tudo dói, ao mesmo tempo não sinto nada. O vazio é tão convidativo que eu apenas continuo caminhando em sua direção, sem alardes, ou placas de pare pelo caminho. Não há nada na estrada, apenas meus passos e as vozes.

Chorei esse mês toda meta esperada para o resto do ano, foi como se meu corpo quisesse colocar pra fora toda dor que tenho pintado com belas frases, como se secar meu reservatório interno fosse necessário para que algo melhorasse, poderia dizer que isso me trouxe um pingo de esperança, mas estaria mentindo e nem sei bem pra quem.
Fiz mais uma tatuagem em cima daquela marca que trago de dores passadas, queria te contar do seu significado, mas como é que a gente começa uma conversa com alguém que um dia já foi muito importante pra gente, mas hoje é silêncio e ausência. Quis te contar da semana de merda que tive e todos os sapos e peixes que precisei engolir porque não nasci rica e não tenho coordenação pra fazer dancinhas no Tik Tok. Tenho aprendido que ausência também são respostas, mesmo quando não ousamos fazer as perguntas.

Amanhã inflo meu peito de coragem e te ligo pra contar que meu corpo tem virado poesia daquelas que Bentinho recitou pra Capitu antes de desonrar o seu nome. Talvez eu continue na linha mesmo após o terceiro toque, talvez você me atenda e eu perca a coragem e apenas deixe o barulho da minha respiração te falar todas as palavras impalataveis que tenho colecionado. Talvez você me diga sem palavras que apesar de tudo meus olhos e coração continuam sendo oblíquos de cigana dissimulada.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

MARGARIDAS E BELCHIOR


Minha cabeça tem estado agitada, pensamentos pulsantes que me deixam fora de sintonia com o mundo ao redor. Tenho me sentindo de volta a sétima série quando os populares se reuniam em rodinhas e eu apenas fazia parte, mas nunca realmente fui um deles. As pessoas tem falado falado e eu apenas repito gestos e olhares na esperança de que em algum momento elas vão me deixar quieta no canto da sala. Tenho estado cansada fisicamente e emocionalmente. Tenho me cobrado por coisas e situações que fogem do meu efêmero controle, mas eu insisto. Desistir apesar de ser um desejo tão misturado as minhas células não é uma opção eles dizem, então eu continuo. Talvez uma hora o meu corpo apenas pare e grite da forma que conseguir que minha mente precisa dar um tempo. Respirar ainda é necessário.

Balanço o pé enquanto aguardo em uma sala fria pra ouvir palavras que saem da boca de alguém totalmente estranho, que me conhece pelas telas que eu mesmo pinto e recrio a minha maneira. Minhas cores são sempre frias. Minha ansiedade tem trabalhado esses dias como quem precisa bater a meta no final do mês. As noites tem sido seu horário preferido, quem precisa dormir afinal? Eu não. Perdi as contas de quantos chás minha chaleira preparou esse último mês, sinto que nem ela e muito menos o meu gás aguenta essa pressão de acalmarem o impossível. Mas eu tento, juro. Levantar da cama hoje, tomar meu banho matinal, sorrir para o motorista do ônibus, rir das mesmas piadas dos colegas de trabalho, não correr para o banheiro pra poder chorar e respirar são as maiores provas de que estou tentando. Ninguém sabe o esforço que é sair de mim mesmo em alguns dias, eu sei.

Minha mente vaga em coisas que preciso fazer e naquelas que deveriam ter sido feitas. Mesmo sabendo que o passado é uma roupa que já não me cabe mais e que não posso simplesmente remenda-lo como as velhas roupas que minha vó fazia eu continuo a pensar. Percebo que nunca estou no presente, nesse segundo que acaba de passar, na conversa sobre o hoje. Minha mente se perde em labirintos entre o passado e um futuro que nem sei se chegará. Eterna prisioneira, não sou dona nem mesmo dos meus pensamentos. Minha ansiedade joga baixo, brinca com meu desespero. Tudo desmorona a minha volta como um grande e belo castelo de cartas.

Hoje fez sol a tarde, coloquei meu vestido de margaridas pra lembrar de dias que o calor e o abraço fraternal se fazia presente, aliás margaridas é um lembrete diário de que a vida é efêmera, mas minhas dores não.
Fechei as janelas e dancei ao som de Belchior enquanto brindava a vida por ser uma grande cretina.

Como já dizia Belchior "Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro."

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PASSOS

Leia Ouvindo | Falling

Hoje minha terapeuta me fez uma pergunta que bateu forte "Mas porque você tenta tanto ser essa pessoa forte?", ela sorriu depois de jogar uma bomba no meio da sala e eu apenas retribui o sorriso sem saber o que responder. Queria dizer pra ela que é por mim mesma, mas ela veria a verdade nos meus olhos. Aliás temo que ela já saiba e que esse seja o motivo dela continuar insistindo, precisa sair de mim, mas simplesmente não consigo, tenho socado tudo aqui dentro. Sei que as coisas estão ficando apertadas e que respirar tem sido difícil, acontece que tenho visto os dias passarem e aquilo que tenho tanto medo crescer nas sombras. Falta coragem de falar a verdade abertamente, de dizer em voz alta o que meu corpo e coração já tem sussurrado.

Não é cansaço, falta de sono, de viajar, de beber com as amigas, de um tempo pra mim. Não é isso e admitir que a causa está mais no fundo das muitas camadas que joguei por cima pra que ninguém nem mesmo eu pudesse desenterrar é doloroso. Seria necessário muitas seções de terapia pra que tudo fosse exposto, mas temo que não tenho mais tempo.
Estamos em setembro e tenho fugido das redes sociais, todos agora parecem preocupados com as pessoas, compartilham posts sobre depressão, prevenção ao suicídio e toda aquela burocracia que as pessoas fingem ser em meses com datas significativas. Esses dias li um post que dizia que as pessoas tem muitas coisas boas pra dizer sobre você, mas depois que morrer. Será que vou ser a amiga incrível, a esposa maravilhosa ou a super mãe? Não podemos esquecer daqueles que vão falar que eu tinha uma vida toda pela frente, e claro os que vão me chamar de egoísta que não fui capaz de pensar nas pessoas que me amavam. Queria rir na cara desse povo que gospem santidade, mas não passam de hipócritas. Pessoas com esse tipo de pensamento certamente nunca viveram com alguém com depressão ou outro tipo de transtorno psicológico, é uma droga acredite. E por mais amor que haja de ambas as partes uma hora tudo que todos querem é que isso acabe, a diferença é que cada um pensa em uma solução.

Esses dias conversei com uma amiga sobre como temos medo de chegar naquele ponto que tudo que queremos é apenas se desligar. Tanto ela quanto eu sabemos que esse ponto é um caminho sem volta, uma vez ali nada mais pesará.
Sinto que estou tão próxima desse ponto, tem dias que dou passos pra frente, no dia seguinte apenas fico parada, o problema é que já não recuo mais, não existe passos pra trás. Então se você for bom de conta pode imaginar.

Sinceramente não faço ideia de como fazer as coisas melhorarem, talvez bem lá no fundo eu nem queira. Tenho me perdido em tantos pensamentos, escrito de maneira compulsiva, talvez seja minha forma de tentar me desculpar por querer ser forte e mesmo assim continuar sendo essa pessoa fraca.
Minha terapeuta diz que preciso encarar meus problemas de frente, então vamos lá "seja bem vinda depressão, afinal você já é de casa".

sábado, 18 de setembro de 2021

AMANHECEU CINZA


O dia amanheceu na minha paleta de vida: cinza. Um dia tipicamente de São Paulo. Acordei com um barulho tão familiar, chovia. Mas é que chove a tanto tempo dentro das minhas paredes tão lindamente pintadas de girassóis (esperança boba de ter algum dia ensolarado) que achei que fosse só meu corpo escorrendo. Mas chovia lá fora. As gotas se acumularam na minha janela e eu fiquei pensando como a vida é efêmera, como a roda nunca para de girar, mesmo quando se está embaixo, ralado, sangrando e sem ar, a vida não espera você tomar fôlego pra se recuperar dos milhões de ralados que tua alma tem, saudades de quando eram apenas os joelhos. Ela apenas continua a girar e dane-se se alguma parte sua foi perdida no meio do caminho, você que lute pra recolher os cacos que sobraram. Hoje me sinto cansada de tanta luta, parece que estou em um ringue lutando com o campeão mundial com luvas de assar bolo. Alguém pode me dizer em que assalto isso tudo acaba?

Meu café esfriou enquanto minha mente vagava em tantos pensamentos, já tentou tomar café morno? Impossível. As vezes sinto que a vida é um grande café morno, tem cara de café, cheiro de café, mas o gosto é desastroso. E mesmo sabendo que é intragável você bebe porque não há opções, e quando percebe os dias viraram apenas um aglomerado de números que passam por cima de você.

Ontem fez sol, mas por dentro a chuva não deu trégua. Cheguei em um estágio que já não crio grandes expectativas. Nada mais me abala, nada mais tem aquele frio na barriga de quando acreditava que bastava a gente desejar muito e se esforçar que tudo daria certo. Liguei o piloto automático e apenas continuo porque isso é o que esperam de mim. Seja uma boa menina, não demonstre seus sentimentos assim, deixa de drama, engula esse choro, sorria, ajeite essa postura, não manda mensagem, não use esse batom. São tantos manuais do que não fazer, de como não ser, mas nenhum que me diga de verdade quem é essa pessoa que me olha no espelho com um olhar perdido e deverás cansado. Me sinto como Alice correndo atrás de alguém que a diga quem ela é, mas tudo que consegue é se sentir cada vez mais perdida. Estou perdida, mergulhada em regras que rasgam minha alma e sangram tudo aquilo que um dia foi livre.

Virei um daqueles passarinhos da casa do meu avô, presos em sua própria liberdade. As gaiolas estão sempre abertas, mas nenhum deles ousam a voar. O medo do desconhecido é mais forte que o desejo de sentir os pulmões se enchendo. Então eles apenas ficam lá, presos a correntes invisíveis. Recebendo cuidados disfarçados de amor, e eles aceitam porque aquilo é tudo que eles conhecem. Então eu aceito, porque isso é tudo que eu tenho.

Hoje tá chovendo. A previsão é chuva para o resto da semana, então teremos 4 dias de pancadas de chuva, somando isso aos dias de chuva interna posso dizer que chove a mais de uma década. Requento o café pela terceira vez, sabendo que isso com certeza me fará ter azia, mas tudo bem de morno já basta a vida.