terça-feira, 24 de novembro de 2020

NOS DEVOLVI PRO MAR

Ontem olhando a imensidão do mar fiz uma prece silenciosa, que ele te levasse de mim. Que a água salgada lavasse cada canto que ainda contivesse teu nome como lembrança.  Enquanto meus pés tocavam a areia fina e as ondas os beijavam tranquilamente eu te deixava em silêncio, sem alardes, sem ligações, sem choro, sem peito rasgado. Te expirava de mim enquanto me devolvia ao altar.

Prometi ao mar e a deusa que nunca mais te devolveria ao peito que tanto te quis bem. Não por falta de sentimento, mas me tornei imensa demais para um amor que já não faz transbordar.
Meu coração não merece as mesmas covardias e antigas histórias desencontradas, o mar sabe o que está levando e do fundo da alma espero que um dia esse teu peito aflito encontre um amor perene pra ancorar, se é que já não o encontrou.
De tudo o que fomos deixo aqui com o mar a parte que não nos cabe mais. Talvez um dia a gente aprenda se olhar com maturidade suficiente pra se desejar apenas como velhos amigos, mas hoje meus olhos, corpo e mente te nutrem como amor.

Decidi não colocar pontos finais em nada, acredito muito na força do destino e que tentar nadar contra maré só nos faz afundar, por isso te escrevo para que essa seja nossa despedida do presente, porque o futuro ainda está sendo pintado e nós sabemos que não se deve apressar uma obra. De você guardo os mais leves sorrisos, mas já não os tranco a sete chaves, estou permitindo que esses também escorram de mim, assim me torno mais leve pra novas lembranças que já não tenham teu nome como endereço.
Obrigada por ter me abrigado em seu peito, mesmo sabendo que não foi por vontade sua ou nossa.
Já pode me soltar também, tudo bem.
Estamos bem.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

DENISE

Leia ouvindo | Beija Flor

Ela quase sempre prefere o silêncio de sua inquietude do que entrar em conversas que sabem que tudo que vão conseguir extrair dela é caos. Ela aprendeu ser sozinha, ser raiz, mesmo em solo seco, ela insiste em se plantar, porque ela é dela e somente dela, e sabe reflorescer não importa a estação do ano. Um dia ela já foi de muita festa, de risadas exageradas e muita falação, mas aprendeu com a vida de que as melhores coisas e seus melhores momentos devem ser entregues para pessoas assim como ela, pessoas que possuem a alma livre de qualquer amarra que a sociedade insiste em nos dizer que precisamos ter, ela já parou de dar ouvidos a quem não merece sua atenção, ela é dela e somente dela.

Tem dias que ela acorda se sentindo menor que a formiguinha que todos os dias faz seu caminho pela varanda que ela tão lindamente toma suas doses de vitamina D. Essa moça é feita de sol, ela é tão solar que quando o céu amanhece nublado seu espírito em um ato de rebeldia também resolve se fechar, então ela chora, se sente pequena, sente que o mundo é pesado demais e que suas cicatrizes são lembretes do quão cruel a vida pode ser. Ela é feita de caos e estrelas, ás vezes pode não parecer, mas essa moça carrega grandes constelações em seu peito, peito esse que ela insiste em dizer que é frágil, mal sabe ela que seu coração é todo forjado pelas mulheres que vieram antes dela, ela é uma em muitas, muitas apenas nela.

Alguns dias ela é chuva, em outros é o próprio sol, e é sobre esses dias que gosto de recitar, é desses dias que o coração dela parece que vai explodir do peito que amo transformar em poesia e prosa, aliás ela é toda bolsa nova. É sobre o jeito que ela sorri quando algo aquece seu coração, é sobre sua risada alta e exagerada daquele tipo que a gente se entrega e ri junto, é sobre o jeito que ela faz piada de suas próprias dores, sobre como ela levanta depois de o mundo ordenar que ela continue no chão. Ela não é do tipo que se permiti desistir, mesmo quando acha que sim, mesmo quando o cansaço repete besteiras em seus ouvidos, ela continua. Ela levanta, pega seu baixo e permite que sua dor se transforme em uma nova canção.

Seu coração é terra fértil, mas não é qualquer um que merece germinar nele. Sua terra é feita para grandes amores, mesmo aqueles que duram apenas algumas estações, sua alma não é de se prender, ela é passarinho, aprendeu voar depois de sentir presa, hoje ela precisa das alturas para se sentir viva, mas ela sabe que ás vezes é bom ter onde pousar.

Ela é poesia, prosa, verso e canção. Sua história é só dela, se chegar a dividir com você suas marcas e cicatrizes se sinta privilegiado porque não é qualquer pessoa que chega a conhecer sua imensidão. Ela é tão linda e rara, parece até estrela cadente. Ás vezes ela se esquece do quão forte e brilhante é, por isso escrevi essas linhas meio bagunçadas só para lembrá-la. Ela é dela e somente dela, ela é Denise.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

NÓS

Leia ouvindo: Me leva 

Aqui tem sido dias bem intensos, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e no centro de tudo lá esta você com seu sorriso lindo, com aquele olhar intenso que faz o oxigênio do meu corpo circular de forma irregular. Cê mexe com meu corpo, desestabiliza até a minha menor célula, cê joga baixo jogando da forma mais limpa.
Tem sido dias estranhos por aqui, enquanto sua vida está na loucura de reuniões e metas a minha parece que estagnou só pra me fazer perder o juízo. Tenho tentado ocupar os dias e os pensamentos, acredite até yôga eu já pratiquei tudo pra afastar a visão da sua boca tão carnuda. Aprendi a fazer pudim, arrumei o guarda roupa, tirei algumas roupas pra doação, escrevi, li, joguei papo com as amigas, tudo pra não te procurar, tudo pra não admitir minha necessidade latente de você.

Ontem depois de conversar com uma velha amiga percebi que preferi trocar de terapeuta do que mexer na ferida que somos nós, cê tem noção da guerra que é te ter como hospede aqui dentro do meu coração? Já tentei tantas vezes te enxotar, limpei, redecorei, aumentei os honorários, taxei todas as suas manias, coloquei anúncio de vaga, aceitei outro inquilino, mas cê tá tão enraizado nesse miocárdio que só fazendo um transplante pra te tirar de mim, ainda assim desconfio que sou toda feita de você. Isso poderia soar triste, ou falta de amor, mas a gente sabe que é literalmente o oposto, te amo tanto que te deixo continuar aqui dentro mesmo construindo moradias em outros corpos, e ainda assim te quero bem, mais que isso. Te quero feliz, mas feliz de verdade, quero que seja livre de todas as amarras que já fizemos de nós.

Dizem que bebida e celular são combinações perigosas pra quem sente muito, ontem fiz valer esse sábio conselho que de tão bom eu simplesmente ignorei. Depois de algumas boas taças de vinho me percebi nua, e na minha nudez veio a urgência de ter a coragem que só os bêbados possuem de contar que sempre foi você, que toda vez que fugi dos seus olhos era medo. Medo de colidir bem no meio do seu peito, medo de começar a fluir e não dar conta desse mar que sou.
Nua eu gritei tudo que soquei até ficar minúsculo dentro de mim, até ser quase invisível, até parecer que nunca existiu, mas bastou a gente começar para eu ir tirando todas as camadas que cobriam a imensidão de sentimentos que queimam nesse corpo que só apanha dessa coisa chamada amor.

Te quero, e isso nunca foi novidade, mas ontem foi a primeira vez que fui de peito aberto, que não fiz jogos, que não fui covarde, ontem pela primeira vez deixei meu desejo escapar pela fresta e foi insuportável a dor de saber que jamais seremos nós, somos planetas distantes que jamais irão coexistir, ainda que na mesma galáxia, nossas órbitas giram em sentido opostos. Mas ontem, e só ontem me permite rezar para todos os santos por um momento, uma pequena fração da eternidade foi o que pedi, só para que nossos corpos explodissem feitos estrelas que se chocam. Cê está anos luz da minha órbita e mesmo assim explode fragmentos de você todos os dia pelo meu corpo.

Te amo, da forma mais mundana que poderia amar alguém, mas também amo da forma mais pura pra te querer bem, mesmo sem nós.
Hoje acordei com uma ressaca que nem o meu café forte foi capaz de resolver, nem o amargor foi maior do que o gosto de desejar o impossível.
Hoje estou aqui quietinha tentando socar tudo de volta pra essa carcaça que me tornei, e assim a gente finge que nunca me despi pra você, que nunca fiquei em carne viva só pra gritar que ainda te amo.
Por hoje suplico aos deuses que o destino não permita que a gente se encontre, o mundo não seria o mesmo depois disso.

sábado, 22 de agosto de 2020

ALMA NUBLADA


Mudei os móveis da sala essa semana, acordei na pilha de que precisava reorganizar a casa, assisti alguns vídeos sobre energia e aquelas coisas que sempre achei tolice e me questionava como alguém poderia acreditar, pois é. Coloquei na cabeça que precisava de uma boa faxina, daquelas que deixam o corpo exausto, que a gente soa mais do que se tivesse feito exercícios de hit. Joguei tanta coisa fora, papéis antigos, cartas, bilhetes, tanta coisa inútil que acumulei nessa vida. No final do dia me sentia exausta, destruída, cansada, mas o cheiro de casa limpa e me descobrir dentro de um novo espaço que apesar de antigo tinha gosto e cor de novo fez meu sorriso ser genuíno.

Queria fazer uma faxina dessa aqui dentro, mas tirar o concreto é fácil, como faço pra jogar o abstrato, como faço pra aspirar os cantos do meu coração, tirar toda aquela tralha de sentimentos que sei que já não me cabem, mas continuam guardados aqui dentro. Onde compro um aspirador que suga até mesmos os cantinhos mais invisíveis de mim, não sei.
Ontem choveu, e anteontem e no dia anterior também, hoje chove. Escorre águas nas minhas paredes internas, chover aqui dentro é uma exata ainda que eu seja de humanas. Minha ansiedade aumenta em dias que o sol não aparece, sinto que a cada dia nublado minha alma ganha um novo tom de melancolia, é difícil se sentir em paz nesses dias. Fico agitada, a inquietação me faz perder o equilíbrio, o café se torna água, as horas voam, os pensamentos gritam e as folhas se enchem com palavras escritas de forma irregular, é uma necessidade latente de jogar tudo pra fora, ainda que o efeito seja reverso, quanto mais escrevo mais sinto, e quanto mais sinto mais escrevo, e nesse círculo os dias vão se tornando uma sucessão de xícaras empilhadas e papéis rabiscados.

Já está escuro lá fora e minha cabeça continua agitada, repassando coisas que ainda preciso fazer, as vezes me sinto presa em um filme de terror, daqueles que você acorda no meio da noite e sua televisão está ligada com a tela chiando e seu senso de sobrevivência sente que algo vai sair de lá. Minha vida está chiando a décadas, tem dias que tento mudar o canal, outras procuro desesperadamente o controle para deligá-la, mas na maioria só fico esperando o terror me pegar.
Sento na minha nova sala que tem cheiro de novo, tomo meu café e observo os ponteiros do relógio trabalharem em um frenesi, penso em assistir um filme ou uma nova série, talvez ler um livro, escrever mais um pouco, mas ligo minha alma enquanto a observo chiar...

terça-feira, 18 de agosto de 2020

POLISIPO


Hoje amanheceu chovendo por aqui, cê sabe. Dias chuvosos sempre me abraçam como aquele velho moletom que tenho no fundo do guarda roupa, sei que esta velho e ás vezes o cheiro de mofo me incomoda, mas mesmo assim ele ainda me lembra casa, dias chuvosos tem o mesmo efeito sobre mim.
Estaria mentindo se dissesse que os dias não tem sido bons, mas cê conhece minha alma ela não sabe descansar e aproveitar os raios de sol como se merecesse, sempre tem aquele pensamento de que talvez tudo desmorone em algum momento. Minha terapeuta diz que isso é minha ansiedade tentando sabotar momentos felizes, minando minha capacidade de reconhecer que sou merecedora de paz e tranquilidade. A verdade é que fico ali quietinha só aguardando o momento que precisarei me ajoelhar no chão e recolher meus pedacinhos. Pessimista né? Eu sei, mas não sei ser de outra forma, esse coração sempre bateu fora do compasso, essa carne sempre sangrou mais do que cicatrizou, tudo que meu corpo reconhece é o caos.

Tive algumas semanas tipicamente difíceis, dias demais, vontade de menos. A inercia me aconchegou em seu velho colo, acariciou minhas velhas inquietações e sussurrou segredos antigos, aqueles mesmos que minha terapeuta insiste em dizer que preciso abandonar, que eles me sufocam e inibem meus passos pra frente. Como é que explico pra ela que eles estão tão enraizados em que sou que se tirá-los de mim temo que eu me desfaça por aí como papel em contato com a água, talvez no fundo seja isso que ela tem tentado me ensinar, talvez eu precise me dissolver até o ponto que não sobre mais nada daquela que fui um dia, daquelas velhas e amargas cicatrizes. Talvez eu precise deixar minhas dores de estimação sumirem nas águas, preciso abandonar aqueles que me machucaram de forma violenta, deixar pra lá o gosto ácido que sinto toda vez que a palavra passado me bate a porta.

Enquanto escrevo ouço a chuva cair lá fora, me pergunto se não devo me juntar as inúmeras gostas que caem no chão da minha varanda, permitir que nossas águas se misturem, mar e rio. Talvez seja necessário inverter as posições nessa dança, eu me torne o rio e deixe o oceano me invadir de vez, que ele engula e encubra tudo aquilo que já foi eu.
Preparei um chá, logo eu que sempre fui amante de um bom e forte café me descobri enamorada pelo calor de um bom chá, aparentemente também sinto o gosto de casa com essa bebida. Sobre isso, é engraçado como nos tornamos mais abertos com o passar da idade, aprendemos que tudo bem errar, tudo bem pedir desculpa e o principal se desculpar, confesso que nisso ainda não sou muito boa.

Semanas atras acordei cansada. Cansada de sentir tanto, de sentir tudo como uma casa frágil sendo despedaçada por um tornado. Cansada de me olhar e enxergar todas as minhas dores, menos eu. Cansada de engolir o choro, o medo, o grito. Cansada de engolir tudo e depois ver meu corpo se retorcendo porque dentro dele não cabe mais nada, tudo sangra e dói. Levantei, tomei meu café, passei minha maquiagem e decidi assim como quem decide o almoço do dia, essa dor toda merece ao menos virar arte. Marquei o corpo com aquele desejo que trago desde muito tempo, preciso de uma pausa nessa bagunça que é viver e continuar sentido.
Esse texto aqui é só para me sentir viva, me sentir eu, me sentir minha própria casa, mesmo que ela cheire a mofo, ela ainda continua sendo eu, e eu continuo viva.

P.O.L.I.S.I.P.O
quando o difícil do mundo dá um tempo. Do grego, significa pausa na dor.